No Brasil há mais de um século, os irmãos maristas fazem votos de pobreza, castidade e obediência. Mas há um outro lado pouco conhecido dos membros dessa ordem religiosa. Eles são também executivos engravatados que administram um enorme complexo de escolas, faculdades, hospitais e veículos de comunicação que juntos têm um faturamento de R$ 2,3 bilhões por ano. Recentemente, foi iniciada uma fase de profissionalização, com adoção de práticas de governança e irmãos formados pelo Instituto Brasileiro de Governança Corporativa (IBGC).
No país, os maristas se dividem em três unidades administrativas. A maior delas é o Grupo Marista, com receita líquida de R$ 1, 24 bilhão em 2011. Seu processo de profissionalização é o mais avançado.
Há cerca de um mês, o Grupo Marista ganhou uma nova estrutura corporativa em que a diretoria executiva é formada por apenas dois irmãos – o presidente e o diretor da área de solidariedade. Os demais 18 diretores são executivos leigos, ou seja, não são maristas. Antes, a maioria dos diretores era de irmãos. No conselho de administração, são sete maristas e dois conselheiros independentes.
“Uma mudança em uma organização tão grande não é simples, mas fizemos questão de envolver todos nesse processo e não foi de forma repentina. Em 2006, começamos uma reestruturação porque percebemos a concorrência e não iríamos sobreviver sem a profissionalização”, disse o irmão Délcio Afonso Balestrin, presidente do Grupo Marista.
Nesta nova etapa, uma das metas é integrar e ganhar sinergias entre as diferentes áreas de atuação do grupo. Até então, os negócios eram geridos de forma independente. Por exemplo, os 16 colégios do Grupo Marista pouco se falavam quando o assunto era gestão. As relações com as faculdades eram ainda mais distantes, apesar de ambos os negócios serem da área de educação. “As pessoas não sabem, por exemplo, que a PUC-PR, o colégio Arquidiocesano e a editora FTD pertencem ao mesmo grupo”, disse Marco Antonio Barbosa Cândido, superintendente do Grupo Marista. “Podemos aproveitar as salas dos colégios que ficam ociosas no período da noite para ministrar aulas dos cursos técnicos da PUCTEC”, complementou. Tanto Cândido quanto Balestrin tomaram posse dos respectivos cargos há cerca de um mês.
Além dessas sinergias, há os ganhos operacionais. Eles informaram que ainda não sabem quanto podem economizar com a escala maior. Mas já sabem a importância de compras em grandes volumes. A União Marista do Brasil, associação que congrega as três unidades administrativas da ordem religiosa no país, já negocia vários tipos de compras e serviços e consegue preços diferenciados por conta do volume. A associação compra, por ano, 5 mil bolas (de futebol, de vôlei, de basquete) para os 86 colégios maristas. O gasto anual com licenças da Microsoft é de US$ 1,1 milhão.
A maior parte da receita de R$ 1,240 bilhão do Grupo Marista é gerada no setor de educação – R$ 975 milhões vêm de colégios particulares. Em geral, as escolas são bem conceituadas, cobram mensalidades caras que subsidiam as ações sociais do grupo. Mais R$ 230 milhões são provenientes de hospitais; e R$ 35 milhões vêm de negócios suplementares (como as rádios).
Para trabalhos sociais – que incluem concessão de bolsas de estudo, atendimento em hospitais e serviços de assistência social a pessoas carentes – o investimento somou R$ 180 milhões, no ano passado. Esses recursos são provenientes do próprio caixa do grupo que registra anualmente superávit de cerca de 10% sobre a receita líquida. O lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização (Ebitda) é de 14% sobre a receita líquida.
Na área da saúde, o grupo é filantrópico: 75% dos seus atendimentos são feitos pelo Sistema Único de Saúde (SUS). Os hospitais fazem 375 mil atendimentos subsidiados pelo governo, mas como esse pagamento não cobre as despesas do SUS, o Grupo Marista inaugurou no ano passado um hospital privado, batizado de Marcelino Champagnat (o fundador da ordem dos maristas) para complementar as despesas. “Nessa nova etapa de profissionalização, todos os irmãos já se conscientizaram que precisamos crescer economicamente para expandir nossas ações sociais”, diz irmão Délcio.
Apesar de já ter feito algumas parcerias (há dois anos fechou uma com o centro universitário Católica de Santa Catarina), a meta do grupo é crescer organicamente e sozinho. Entre os projetos, estão a construção de um colégio em Joinville para 1,5 mil alunos; e mais dois colégios em cidades localizadas no Sul e Centro-Oeste do país. O sistema de ensino profissionalizando PUCTEC será ampliado para outras regiões fora do Paraná. E um teatro será inaugurado em novembro em Curitiba.
fonte:valor on line
Deixe um comentário