Gávea Investimentos se prepara para era pós Armínio Fraga

Em outubro de 2010, a Gávea Investimentos vendia seu controle ao Highbridge Capital, subsidiária do J.P. Morgan. Naquele momento, anunciava planos de lançar novos produtos, como fundos imobiliários e de crédito. E também um desejo de seu fundador: “Está na hora de a Gávea deixar de ser a gestora do Arminio Fraga”, afirmou o próprio Arminio na ocasião.

Dois anos depois, a Gávea está prestes a tirar do forno os fundos planejados. Mas continua, sem sombra de dúvidas, a ser a gestora de Arminio Fraga.

“Eu tenho 55 anos, meu primo Luiz, 52. Não somos mais tão jovens e não queremos parar já. Estamos com todo gás, mas vai chegar a hora em que nos afastaremos do dia a dia e migraremos para o conselho. A Gávea tem que continuar”, conta Arminio, referindo-se a Luiz H. Fraga, seu primo, também sócio fundador da Gávea e com passagens pela Latinvest Asset Management e Globalvest Management, uma das maiores gestoras independentes dos Estados Unidos.

“A associação com o Morgan nos proporciona um acesso a capital muito relevante. Precisamos manter as pessoas aqui dentro motivadas com o futuro do negócio.”

Nesses nove anos de vida, é possível dizer que a identificação da casa com o antigo gestor que trabalhou com o megainvestidor George Soros e comandou o Banco Central em momentos delicados da economia do país nunca foi exatamente estimulada por Arminio. Desde o começo ele trouxe para a Gávea parceiros conhecidos no mercado – estão lá outros nomes que passaram pelo governo, como Edward Amadeo, o economista-chefe, ou Amaury Bier, no comitê de investimento. Também o ex-presidente Fernando Henrique é do conselho consultivo. Recentemente, para cuidar dos novos produtos imobiliários, chamou, Rossano Nonino, ex-diretor da Brazilian Capital. Para o crédito, José Berenguer, ex- Santander.

Mas foi o prestígio de Arminio, e também de seu primo Luiz, que garantiu o acesso ao capital de investidores internacionais e fez a Gávea transformar-se em uma das principais gestoras independentes de ativos do país, com US$ 7,5 bilhões sob gestão – sem somar os dois novos fundos que estão para ser fechados que, na casa do bilhão, devem levá-la à liderança.

Luiz é quem comanda a área de “private equity” da Gávea, a que mais chama a atenção na gestora já há alguns anos. Os quatro fundos dedicados a essa atividade concentram US$ 4,2 bilhões – 56% do total sob gestão. O percentual restante continua atrelado à atividade que norteou a criação da asset, a de ser um “hedge fund” global, inicialmente com perfil macro, amplamente ligado à pesquisa e à análise de dados no Brasil e no exterior. Foi assim que tudo começou, em 2003 e com US$ 2,8 bilhões sob gestão.

Pouco tempo depois, em 2005, a equipe viu uma oportunidade surgindo em private equity. Inicialmente, a Gávea olhava para empresas pensando quase que exclusivamente em liquidez.

Mas identificou a oportunidade de investir em participações. “Conversamos com alguns de nossos investidores e três grandes toparam. Fechamos o primeiro fundo, com mandato híbrido. Além das fechadas, comprávamos também blocos de participações em companhias menos líquidas, já listadas”, conta Arminio.

O fundo 1 fechou a captação com US$ 350 milhões, em 2006. Um ano depois, o Gávea já captava o segundo, com mais que o dobro desses recursos, US$ 840 milhões – 2007 foi o ano de farta liquidez nos mercados globais.

“Os próprios investidores nos sugeriram um novo fundo, dessa vez já de saída com um prazo maior, um mandato de private equity e também de comprar grandes blocos em empresas listadas”, conta Armino.

Veio 2008 e, apesar da temporada difícil de crise aguda nos mercado globais, o Gávea novamente captou mais: US$ 1,2 bilhão, para o fundo 3.

“Foi a partir desse fundo que iniciamos o caminho para o que somos hoje. Fazemos private equity e investimos em empresas que estejam na bolsa desde que possamos atuar também para melhorar a governança”, explica Luiz. Ou seja, a partir daí a Gávea passou a compartilhar com proximidade a gestão das empresas em que investe, com, pelo menos, um assento no conselho.

O quarto fundo, captado ao fim de 2011 e já sob o selo J.P. Morgan fechou com US$ 1,9 bilhão – 58% mais do que o fundo 3.

Quem acompanha a área de private equity da gestora não se espantou quando ela vendeu 55% de seu capital para o Highbridge. Nas empresas em que investe, a Gávea sempre compra participações minoritárias – não se importou, portanto, em ser minoritário de si mesmo.

É verdade que as pequenas fatias nas empresas em que ingressa são muitas vezes costuradas com participações em acordo de acionistas ou vinculadas ao bloco de controle. E a receita se repetiu no acerto com o J. P. Morgan – a Gávea deixou claro que continuaria concentrando a gestão ou a decisão dos investimentos.

“Nosso comitê é independente. Nada funcionaria se no meio de uma reunião com empresários tivéssemos que pedir licença para ligar para o Mr. Morgan antes de decidir pelo investimento”, diz Arminio. Ninguém do Highbridge participa do comité de investimentos. O fundo possui apenas uma pessoa trabalhando na Gávea, no departamento de Operações e se atualiza sobre o desempenho da gestora brasileira por meio de reuniões periódicas.

A tática de comprar pequenas fatias embute uma clara estratégia de preço. “Não pagamos prêmio de controle. Buscamos nos associar com empresários que queiram continuar no comando de seus negócios, mas que também busquem um parceiro para profissionalizar a empresa e beneficiar-se do cenário atual de estabilização do Brasil”, resume Luiz. Dessa forma, ele complementa, a Gávea foge do “Brasil hot”.

“Nesse ambiente, em que todo mundo fica animado pelo Brasil ou por um setor específico, os fundos entram em disputa pelos ativos e paga-se caro por um prêmio de controle. É aí que existe muita competição. Para ser um minoritário engajado tem competição, mas muito menor”, diz Luiz.

Segundo ele, mais de 75% do portfólio de empresas investidas ficou na Gávea sem concorrência com outros fundos de private equity. A economia na entrada mais que compensaria os ganhos na saída, se confirmados.

Arminio afirma ainda que, mesmo nos casos em que possui ações, a Gávea se comporta como um “minoritário de controle”.

“A estratégia de comprar controle e assumir a gestão é muito boa, muita gente faz isso. Mas não é a nossa. Abrimos mão de ter o controle e de pagar um prêmio por isso para termos pessoas a nosso lado que vão trabalhar no projeto e ajudar an estratégia operacional e financeira”, diz.

Pelo acerto com o J.P. Morgan, ao fim de um prazo de 5 anos – em 2015, portanto -, o Highbridge pode ficar com 100% da Gávea. Os pagamentos pelo negócio foram escalonados e condicionados à performance – a Gávea pode valer até US$ 1 bilhão.

Arminio vê com tranquilidade as condições. “Não temos metas, temos métricas. O risco que corremos com o Morgan é o mesmo que correríamos apenas com nossos cotistas. Se fôssemos mal, de qualquer jeito teríamos problemas.”

Ele logo complementa afirmando que o J.P. Morgan é visto como um apoio. “Se surgir um negócio grande para nós, para o qual necessitássemos de muito dinheiro, a plataforma de clientes que eles têm nos daria uma ajuda imensa. É a carteira de investidores do Morgan que nos interessa”, diz.

“Mas é importante frisar que o nosso tamanho hoje está em nossas mãos. Temos um entendimento fino de qual tamanho devemos ter e quanto captar. Não adianta ser grande demais.”

Arminio está, agora, muito entusiasmado com a imensa transformação que ocorrerá na indústria financeira do país por conta da redução de juros.

“A mudança nem começou. Mas a necessidade de diversificação de investimentos, com novos produtos vai ficar cada vez mais óbvia. O Brasil investe hoje 19% do PIB, seria muito melhor se chegasse a 25%”, diz.

Não é mera coincidência que, de um ano para cá a Gávea tenha olhado com mais atenção para o varejo doméstico. Reduziu tíquetes de entrada e reformulou alguns fundos para poder distribuí-los nas plataformas da XP Investimentos e da Órama.

“A maioria dos nossos cotistas é de estrangeiros, mas não procuramos isso. Aconteceu pelo fato de que, quando iniciamos o private equity, conversamos com os cotistas que já possuíamos. Eles foram aplicando também nos outros fundos”, afirma.

fonte valor on line