Com a intenção declarada – e nada modesta – de se tornar o maior banco de investimentos do país, o Banco do Brasil (BB) estuda a possibilidade de destacar sua área de mercado de capitais em uma estrutura à parte, nos moldes da recém-criada BB Seguridade, que vai concentrar os negócios de seguros, previdência e capitalização.
O projeto, ainda em fase preliminar de análise, prevê a criação de uma empresa à parte em parceria com uma instituição privada. A adoção de um acordo operacional ou uma joint venture controlada pelo BB, nos moldes da sociedade com a seguradora espanhola Mapfre, são dois caminhos em discussão.
“Estamos fazendo vários estudos e vamos tomar uma decisão ao longo de 2013”, afirmou o vice-presidente de atacado, negócios internacionais e private bank do BB, Paulo Rogério Caffarelli.
Segundo ele, o BB avalia medidas para se tornar mais competitivo perante os principais concorrentes. Um dos grandes entraves para isso é a remuneração da equipe. Nos bancos de investimentos, a maior parte do pagamento é variável e está atrelada ao desempenho do profissional e da instituição. Como banco público constituído por funcionários concursados, o BB não consegue reproduzir esse modelo e dessa forma não atrai talentos de outros bancos.
“Nossa única opção é formar a equipe. Temos um time fantástico, mas não conseguimos contratar gente de outros bancos”, afirmou Caffarelli. “Ao mesmo tempo, o volume de pessoas que mais perdemos para o mercado são do banco de atacado e da área de mercado de capitais.” Ao constituir uma companhia privada, essa questão poderia ser contornada, disse o executivo.
Segundo Caffarelli, essa estrutura permitiria ao banco se tornar mais competitivo e também possibilitaria a criação de uma corretora de valores mobiliários. “O objetivo é criar áreas que estão faltando para o banco se tornar mais forte nesse mercado, como corretagem, análise e assessoria a operações de fusões e aquisições”, afirmou. “Isso pode ser feito por meio da criação de uma empresa à parte, que prestaria serviços ao banco, ou a partir de uma estrutura montada dentro do próprio BB.”
Os objetivos não são modestos. “O banco já é muito forte no atacado, no varejo e no governo e agora queremos ser o primeiro na área de mercado de capitais”, afirmou Caffarelli.
Não é de hoje que o BB planeja reforçar sua área de mercado de capitais. A ideia de se associar a outra instituição já vem sendo mencionada por executivos do banco há alguns anos em entrevistas e conversas reservadas, mas até agora nada foi realizado.
Agora, no entanto, a instituição tem se mostrado mais atuante. Reestruturou a área de mercado de capitais em janeiro passado, quando a deslocou da vice-presidência de finanças para a divisão de atacado, que opera com oferta de crédito para grandes empresas. “Isso fortaleceu o relacionamento com os grandes clientes, que passaram a contar também com área de mercado de capitais”, afirmou Caffarelli.
No ano passado, o banco também reforçou sua presença no segmento de renda variável. A instituição, que participou de apenas duas ofertas de ações em 2011 e estava em décimo lugar, por esse critério, no ranking da Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima), saltou para a primeira posição no levantamento de novembro de 2012.
Em volume de operações de renda variável, o BB ficou em segundo lugar, atrás do BTG Pactual. A instituição participou de cinco ofertas de ações, que somaram R$ 8,086 bilhões – as emissões subsequentes da Suzano e da Fibria, a “reabertura” de capital da transmissora de energia Taesa e a oferta inicial do BTG, que foi a maior operação de 2012 e levantou R$ 3,234 bilhões.
O BB foi o coordenador líder da oferta do fundo de índice conhecido como Exchange-Traded Fund (ETF, na sigla em inglês) vinculado ao Índice de Carbono Eficiente da Bovespa, chamado de ECOO11, que captou R$ 1,014 bilhão. “Olhamos ofertas de pelo menos R$ 400 milhões”, afirma Bernardo Rothe, gerente-executivo da diretoria de mercado de capitais do BB responsável por renda variável.
A instituição financeira também avançou na emissão de títulos de dívida no mercado externo, passando do oitavo lugar no ranking de novembro de 2011 para a liderança no ano passado. “Participamos de 26 operações, que somaram US$ 26,098 bilhões no ano até novembro”, afirma Aguinaldo Barbieri, gerente-executivo da diretoria de mercado de capitais responsável pela área de renda fixa.
Ao mesmo tempo, o banco reforçou a distribuição de produtos financeiros no mercado externo, com a inauguração de uma corretora em Cingapura, passando a contar com três unidade de venda de ativos no exterior, sendo as outras duas localizadas em Nova York e Londres.
A integração com a área de atacado foi essencial para ampliar o número de operações no mercado de capitais, na opinião de Caffarelli. O BB, que é o maior repassador de recursos do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico Social (BNDES) para o financiamento de projetos, também pretende ganhar espaço na emissão de dívidas atreladas ao financiamento à infraestrutura.
O banco está de olho no imenso potencial de negócio que surgirá com os investimentos previstos para projetos de infraestrutura nos próximos anos, especialmente com os eventos da Copa e Olímpia no Brasil, que devem demandar R$ 1,5 trilhão até 2016. O financiamento de projetos de infraestrutura é uma das principais bandeiras do governo federal para alavancar o crescimento da economia e tem contado com os bancos públicos para atender essa demanda. “Queremos ser o principal braço financeiro desse movimento”, disse Caffarelli. A área é tão importante para o banco que foi criado um fórum de infraestrutura no BB para discutir a atuação no setor.
Na mesma linha, a instituição também planeja ser um dos principais canais para as emissões das debêntures voltadas ao financiamento de projetos de infraestrutura, que contam o benefício de isenção fiscal para o investidor pessoa física. Dos 13 projetos já aprovados pelo governo para emitir esses títulos, o BB está em seis operações.
Nas emissões de dívida no mercado local, o banco estava em terceiro lugar no ranking da Anbima até novembro em número de operações e em segundo em originação. Para 2013, Caffarelli afirma acreditar no crescimento das operações de desintermediação financeira como a emissão de debêntures, Fundos de Investimento em Direitos Creditórios (FIDCs) e fundos imobiliários.
De acordo com o executivo, o banco pretende tirar proveito de sua rede de 5,5 mil agências na distribuição dessas ofertas ao varejo. Em novembro, a oferta do fundo imobiliário BB Progressivo II contou com a participação de 48 mil cotistas pessoas físicas e fez praticamente dobrar o número de investidores em fundos imobiliários na bolsa, que passou de 58.460 para 97 mil.
Na área de renda variável, a instituição deve estrear neste ano com a oferta da BB Seguridade, que deve levantar cerca de R$ 5 bilhões. O BB Investimentos será um dos coordenadores da operação.
A ambição do BB de se tornar o maior banco de investimentos do país é vista com reticência por concorrentes. Apesar da força do banco público, falta a ele experiência na área, afirmou um banqueiro que pediu para não ser identificado. Ao menos por enquanto, não é um competidor que incomoda. “Ao contrário, é até bom ter o nome do BB em uma operação. Mas, hoje, não são eles que criam os negócios. Eles participam, mas as operações geralmente não partem deles”.
Fonte. Valor on line
Deixe um comentário