Exatamente um ano após o fechamento do pronto-socorro da Santa Casa, em julho do ano passado, o DIÁRIO voltou ao hospital para conversar com o provedor eleito no mês passado, José Luiz Setúbal.
Ele se diz otimista com as negociações que podem tirar o hospital da grave crise financeira, que soma débitos de mais de R$ 700 milhões (R$ 400 milhões apenas de empréstimos com instituições financeiras).
A esperança de Setúbal é que a nova linha de financiamento do BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social), destinada à recuperação de hospitais filantrópicos, seja a saída para saldar a dívida.
O herdeiro do banco Itaú, que assumiu o centro médico com a proposta de levar a sua credibilidade para a instituição, conta que nos últimos dez meses a Santa Casa estava sobrevivendo e que nenhuma medida havia sido tomada para renegociar a dívida. “Começamos do zero”, disse o médico, que já destituiu Irineu Massaia do cargo de superintendente e fez mudanças no setor de Recursos Humanos.
A regionalização da Santa Casa, proposta pela Prefeitura, para que a Santa Casa atenda apenas pacientes da região central também é vista com bons olhos pelo gestor.
DIÁRIO_ Um ano após o fechamento do pronto-socorro, o senhor assumiu a provedoria e o Dr. Kalil (Rocha Abdalla, antigo provedor) é investigado pelo Ministério Público. Como avalia os últimos 12 meses?
JOSÉ LUIZ SETÚBAL_ Como reflexo do fechamento do pronto-socorro, houve uma diminuição do fluxo de pacientes. Já voltamos ao fluxo normal. Desde que assumi, tinho passado por todos os setores para conversar com os funcionários e mostrar que há luz no fim do túnel. Evidentemente a gente ouve uma queixa ali, outra aqui de falta de medicamentos, mas nós estamos arrumando as coisas.
Pouco mais de 40 dias após ter assumido o maior hospital filantrópico da América Latina já é possível ter um diagnóstico detalhado?
Infelizmente, a Santa Casa está parada há dez meses. Foi uma surpresa quando cheguei e vi que o CND (Certidão Negativa de Débitos) – necessária para venda de imóveis ou financiamento – e o precatório não estavam sendo negociados. Não houve conversas com os sindicatos. A gente começou tudo do zero. Nos 40 dias que estamos aqui foi feito mais do que nos últimos dez meses.
Nesse período foi traçado um plano para fechar no azul?
O nosso plano é fechar no azul até o fim do ano. Uma das principais causas de estar no vermelho é o Santa Isabel (hospital particular da Santa Casa) com baixa ocupação. Ele dá prejuízo, mas após mudamos sua administração, já subimos a taxa de ocupação de 30% para 50%. O objetivo é chegar a 70%, em dezembro. O novo dirigente descobriu outro absurdo: R$ 18 milhões de um plano de saúde faturado que não haviam sido cobrados.
Como está funcionando a reestruturação da dívida?
Eu conversei, na semana passada, com o vice-presidente da Caixa (Econômica Federal). A intenção deles é que a gente abra uma linha de financiamento no BNDES (Banco Nacional do Desenvolvimento). É uma linha especial aberta para a recuperação de hospitais filantrópicos (leia mais ao lado). Ele me disse que o primeiro hospital a usar essa linha foi a Santa Casa de Belo Horizonte.
A grosso modo, com esse financiamento o BNDES vai saldar a dívida da Santa Casa?
Ainda não foi discutido como serão os detalhes desse financiamento. Os nossos técnicos estão fazendo um plano de negócio com os detalhes da reestruturação da dívida e vamos apresentar para o BNDES. Se será o financiamento total ou parcial, ainda não sabemos.
Essa é a sua principal saída para resolver os problemas financeiros do centro médico?
A gente tem cinco pontos de atuação. A reestruturação da dívida é uma delas. Os outro quatro são os salários que estão atrasados, a regularização dos impostos, a dívida com os credores e a adequação do quadro de funcionários.
A venda de imóveis é alternativa para pagar a rescisão a demissão dos funcionários administrativos ociosos e pagamento de salários atrasados?
A venda de quatro ou cinco imóveis foi autorizada na última reunião da mesa administrativa, mas provavelmente não vamos vender todos. Se a gente acertar com a Caixa talvez não precise vender. A proposta para a compra dos prédios é inferior à avaliação. Em vez de vender, podemos usá-los como garantia para um empréstimo.
O senhor chegou a dizer que se não conseguisse colocar a Santa Casa no azul até novembro poderia fechar as portas do centro médico. Ainda mantém esse posicionamento?
Em novembro eu preciso pagar o 13º salário deste ano. Se eu não tiver negociado as dívidas não terei como pagar, mas sou otimista. Não tenho dúvidas de que a Santa Casa e todos os planos de negócio são viáveis. Mas a gente precisa ter colaboração tanto dos credores quanto do governo para solucionar o problema.
Como vai funcionar a regionalização, proposta pela Prefeitura?
A Santa Casa passaria a tomar conta de todas as UBSs, AMAs e UPAs do Centro. Assim você tem a programação de todas as internações eletivas. Cada região da cidade vai ter um hospital de referência, como por exemplo o Santa Marcelina, na Zona Leste, e o Hospital São Paulo, na Zona Sul. A ideia é muito boa.
LINHA DE CRÉDITO COBRE VALOR TOTAL DE DÍVIDA/ A linha de crédito para hospitais filantrópicos do BNDES (Banco Nacional do Desenvolvimento) prevê o financiamento de 100% das dívidas com bancos e fornecedores com taxas de juros a partir de 1,5% ao ano. A Santa Casa de Belo Horizonte foi a primeira a pedir o financiamento. A proposta foi entregue há duas semanas e ainda está em processo de análise.
FINANCIAMENTO PODE SER FEITO EM 10 ANOS/O financiamento para a reestruturação financeira é feito em um prazo de dez anos, com seis meses de carência para o início do pagamento do empréstimo. Já para a aquisição de máquinas e equipamentos, além de treinamentos de médicos, o financiamento é feito em 12 anos, com um prazo de carência que varia de um mês a dois anos.
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