Maior produtora de papéis para embalagens do país, a Klabin iniciou na última sexta-feira (4) a operação do maior investimento de sua história, a fábrica de celulose de Ortigueira (PR). O projeto de R$ 8,5 bilhões, de acordo com o diretor-geral Fabio Schvartsman, define uma nova rota de crescimento para a companhia, direcionada a partir de agora a cartões e papéis para caixas.
Com o chamado Projeto Puma, a Klabin garantiu matéria-prima para a futura expansão em papel e entra em novos mercados, como a única produtora brasileira de fibra longa de mercado (para venda a terceiros) e a maior fabricante local de celulose fluff – a Suzano Papel e Celulose iniciou em dezembro a produção dessa matéria-prima, usada em fraldas descartáveis e absorventes. “Estamos muito animados com as perspectivas que se abrem”, disse Schvartsman, em entrevista ao Valor.
A companhia já está trabalhando na pré-engenharia da nova máquina de cartões, com previsão de envio do projeto à aprovação do conselho de administração nos próximos meses. A expansão nesse segmento – a Klabin é a única produtora de cartões para líquidos do país – estava limitada pela falta de celulose própria, o que garante custo competitivo.
Com o início de produção em Ortigueira, o projeto estimado em US$ 800 milhões, para uma capacidade de 500 mil toneladas anuais de cartões, poderá ir em frente e potencialmente entrar em operação em 2017. “Esse será seguramente um investimento prioritário”, afirmou.
A geração de caixa do negócio de celulose também deve acelerar o processo de desalavancagem financeira, conforme Schvartsman, e dar fôlego para o novo ciclo de crescimento. No fim do ano passado, a dívida líquida da Klabin, de R$ 12,4 bilhões, correspondia a 6,3 vezes o Ebitda em reais, distante do nível de 2,5 vezes considerado saudável pelas agências de classificação de risco de crédito.
Contudo, a expectativa é de que a geração de caixa dobre a partir do início de operação em Ortigueira, com importante redução da alavancagem. A nova linha, de 1,5 milhão de toneladas por ano, praticamente dobra o tamanho da companhia, cujas vendas em 2015 totalizaram 1,8 milhão de toneladas sem incluir madeira.
No fim do ano passado, a Klabin completou 18 trimestres consecutivos de expansão do resultado antes de juros, impostos, depreciação e amortização (Ebitda) – em todo o ano, o Ebitda ajustado somou R$ 1,98 bilhão. “Queremos ser um ‘player’ de nicho em celulose. Mas temos um projeto de crescimento próprio, que é diferente do de outras empresas do setor”, afirmou Schvartsman.
Dos R$ 8,5 bilhões investidos na fábrica de celulose, cerca de R$ 1 bilhão foi aplicado em infraestrutura e outro R$ 1 bilhão corresponde a impostos, que são recuperáveis. O Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) e o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) participam como agentes financiadores do empreendimento. Correções contratuais explicam a diferença para os R$ 7,8 bilhões estimados anteriormente, segundo Schvartsman. “O projeto está aí, entregue, como realidade, dentro do prazo e não mais caro do que o esperado”, disse.
Ao longo deste ano, a empresa ainda aplicará cerca de R$ 1,9 bilhão no projeto, pois as obras finais continuam em andamento até junho e há uma série de pagamentos a fornecedores que estão atrelados a performance. Nos dois anos de execução do empreendimento, 38 mil trabalhadores passaram pelo canteiro de obras.
Schvartsman não fornece detalhes do custo de produção da celulose na nova fábrica, mas garante que “não existe nenhuma empresa com menor custo” do que Ortigueira. A qualidade dos ativos florestais da companhia e a distância média pequena entre fábrica e floresta, entre outros fatores, contribuem para o baixo custo.
Para 2016, a previsão é de que a Klabin venda cerca de 800 mil toneladas de celulose. Na sexta-feira, foi produzido o primeiro fardo de fibra curta, mas nas próximas semanas a companhia deve iniciar a produção também na linha de fibra longa. No consolidado deste ano, a produção na nova fábrica deve ficar entre 850 mil e 900 mil toneladas. Considerando-se o volume necessário à formação de estoques, haveria, portanto, cerca de 800 mil toneladas disponíveis para venda no ano.
As primeiras entregas de fibra curta devem ocorrer em abril, para a Fibria, que firmou um acordo comercial de seis anos com a Klabin para compra de boa parte da matéria-prima produzida em Ortigueira. A nova unidade tem capacidade instalada 1,1 milhão de toneladas de fibra curta por ano – que foi objeto de contrato com a Fibria – e 400 mil toneladas de fibra longa, que pode ser convertida em fluff. Cerca de 90% da capacidade total já foi vendida.
Conforme Schvartsman, o principal desafio nos últimos 24 meses foi o gerenciamento do Projeto Puma, que é 40% maior do que um projeto padrão de celulose por envolver a produção de diferentes tipos de matéria-prima em duas linhas. A fábrica conta com uma das maiores turbinas de geração de eletricidade em uso na indústria de celulose e papel, que poderá produzir 270 megawatts (MW). Desse volume, que a torna autossuficiente em energia elétrica, 150 MW serão colocados no sistema.
Para escoar a celulose da fábrica de Ortigueira, a Klabin investiu em ramal ferroviário de 25 quilômetros que liga a unidade à ferrovia da Rumo ALL em Mojinho, por meio da qual a commodity será escoada até o Porto de Paranaguá. Para tanto, a companhia comprou 306 vagões e 7 locomotivas.
Também em decorrência do projeto, ressaltou Schvartsman, a companhia está instalando no Paraná um centro de desenvolvimento, voltado para o uso completo da madeira, com aporte inicial de R$ 70 milhões.
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