Dona das Havaianas vale R$ 6,2 bilhões na bolsa e fatia dos irmãos Batista pode ser vendida por mais de R$ 3,5 bilhões
A venda das companhias Alpargatas, dona da marca Havaianas, e Vigor, de produtos lácteos, precisa passar pelo crivo dos bancos Bradesco e da Caixa Econômica Federal, que possuem as ações dessas empresas em garantia a empréstimos dados à J&F, holding controladora do frigorífico JBS.
O Valor apurou que esses contratos de financiamentos preveem que, em caso de alienação das companhias, há o vencimento antecipado do compromisso. Por isso, a J&F precisa pagar os financiamentos ao vender Alpargatas e Vigor ou renegociá-los.
A expectativa é que ambos os negócios sejam concluídos em agosto – além da venda Eldorado, segundo pessoa a par do tema.
As ações da Vigor foram usadas como cobertura para o financiamento da compra da Alpargatas. O negócio foi fechado em dezembro de 2015, por R$ 2,614 bilhões – pagos à vista à Camargo Corrêa.
Num modelo bastante incomum no mercado, a Caixa abriu uma linha de crédito à J&F para 100% do desembolso e deu sete anos de prazo para pagamento dos recursos, sendo dois anos de carência. Como garantia ao financiamento, a Caixa ficou com ações da companhia de lácteos.
Após fechar a compra do controle, a J&F teve de lançar uma oferta pelas ações ordinárias da Alpargatas dispersas na bolsa, conforme determina a Lei das Sociedades por Ações, por 80% do preço por papel do controle.
A oferta aos minoritários ocorreu em setembro do ano passado e consumiu mais R$ 499,5 milhões. Para esse pagamento, a J&F buscou uma linha de crédito no Bradesco e, para sua obtenção, concedeu o controle da empresa como garantia. Considerando os papéis adquiridos na bolsa, a Alpargatas custou R$ 3,1 bilhões à holding dos irmãos Batista, mais juros.
A venda da Alpargatas está sendo negociada com o fundo de participações Cambuhy, que conta com recursos da família Moreira Salles. As conversas, que começaram há cerca de 20 dias, estão protegidas por um acordo de exclusividade. A aquisição é avaliada em parceria com a Itaúsa, holding da família controladora do Itaú.
Já a Vigor é alvo de um processo de venda competitivo, com ao menos três interessados, conduzido pelo Santander e pelo Bradesco. O valor do ativo é estimado entre R$ 5 bilhões e R$ 6 bilhões.
Bradesco e Caixa devem ser imediatamente beneficiados pela venda de ativos da holding, mas o processo é positivo para outros credores, já que reduz a alavancagem do grupo em seu total. Hoje, as discussões da J&F com credores têm girado em torno da concessão de mais prazo para o pagamento das dívidas, não de descontos.
No caso da Alpargatas, mesmo sem iniciar um processo formal de venda, a J&F foi procurada por diversos fundos interessados na transação. Uma gestora brasileira tradicional chegou a levar sua proposta, disposta a desembolsar o mesmo que foi gasto na compra. Mas a J&F não quis conversar nessas bases.
Segundos fontes que conhecem a transação, o contrato de exclusividade com a Cambuhy só foi possível dada a disposição de pagamento de prêmio e a perspectiva de um acordo rápido. A aposta é que o fundo possa colocar um adicional de aproximadamente 20% sobre o preço do ano passado, o que faria o controle da Alpargatas não sair por menos de R$ 3,6 bilhões (a J&F também tem ações preferenciais).
Essa não é a primeira vez que a Cambuhy mira a Alpargatas. Quando a Camargo Corrêa colocou a empresa à venda, em 2015, o fundo esteve entre os interessados, numa espécie de consórcio que tinha também a gestora Gávea, de Armínio Fraga, e da gigante de participações americana KKR. A Gávea, contudo, não está nessa nova empreitada.
Na B3, a Alpargatas está avaliada em R$ 6,2 bilhões. O valor reflete a expectativa de venda do controle. A preço de mercado, considerado salgado por diversos fundos que estudaram a compra, os 54% detidos pela J&F valem pouco menos de R$ 3,4 bilhões.
Quem também considerou a operação foi a companhia têxtil e de varejo Hering, que na bolsa vale R$ 3,1 bilhões. Mas o plano não chegou a virar uma proposta.
Num esforço para reduzir a pressão dos credores, além da Alpargatas e da Vigor, a J&F negocia a venda da fabricante de celulose Eldorado Brasil, cujas ações foram também dadas em garantia ao BNDES. Diferentemente dos casos de Caixa e Bradesco, a dívida foi tomada diretamente pela Eldorado. Mesmo assim, consultado, o BNDES disse que “operações de fusão e aquisição envolvendo empresas beneficiárias de crédito requerem anuência prévia do banco”.
A J&F afirmou, por meio de uma nota, que “tem mantido discussões produtivas e construtivas” com os bancos.
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